quarta-feira, 20 de maio de 2009

OS QUADRINHOS E O PRECONCEITO DA SOCIEDADE

Ontem, o governador de SP, José Serra, (PSDB) declarou que o álbum de HQ "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" (Ed. Via Lettera) é de "muito mau gosto" por conter palavrões e temas sexuais. A notícia repercutiu e foi tema ontem na TV Globo, na Folha de São Paulo, na rádio CBN e em quase toda a mídia. A HQ foi comprada pelo governo para ser distribuída a alunos da terceira série do ensino fundamental, com 8 anos em média.

Tudo foi um enorme mal-entendido e fruto de total desconhecimento sobre o que foi comprado. O trabalho, de qualidade e cheio de méritos artísticos, NÃO foi feito para crianças. É aquele velho problema com o qual os profissionais e leitores de longa data sempre se deparam: a maioria da sociedade sempre vai achar que HQ é coisa pra criança. Aí, alguém que gosta de HQ lá no governo indica a compra de alguns títulos pra distribuição em escolas e bibliotecas infanto-juvenis, mas não checa direito o conteúdo.

Do outro lado, quem vende deveria ser informado qual o público-alvo que vai receber o material. Ora, se fosse para alunos do colegial, problema nenhum haveria. Só fazendo um paralelo com outras mídias que não sofrem de preconceito, imaginem se o governo comprasse o filme Carandiru e distribuísse a crianças de 7 anos. Não preciso falar mais nada, não é?

Acho que os profissionais de HQ vão passar o resto da vida (e as gerações seguintes) eternamente tendo que explicar aos não-iniciados algo que é óbvio no Japão, EUA, França, Inglaterra, Portugal, Argentina e demais países cujo povo lê muito: Histórias em quadrinhos não são leitura somente para crianças. Existem quadrinhos de todo tipo e para todo tipo de público, assim como o cinema, teatro, música e qualquer outra mídia.


Finalizando, a ACB - Associação de Cartunistas do Brasil publicou ainda ontem uma nota falando sobre o caso, nota esta que reproduzo abaixo:

ASSOCIAÇÃO DOS CARTUNISTAS DO BRASIL – ACB

Rua Lourenço Rodrigues Souza, 174 – São paulo/SP – CEP 02760-050 – Tel 011 3851 5221

www.hqmix.com.brhqmix@hqmix.com.br

Sobre reportagens a respeito do livro “Dez na área, um na banheira e nenhum no gol” da Editora Via Lettera.

Hoje, dia 19 de maio, na mídia, houve a repercussão de uma matéria sobre o mau uso do livro de quadrinhos acima citado onde vários autores importantes da área desenharam sobre o tema futebol.

O livro, premiado e trazendo desenhistas também premiados, inclusive fora do Brasil, foi mostrado como material de linguagem chula e arte sexista imprópria para distribuição para crianças da rede pública de ensino como material paradidático.

A Associação dos Cartunistas do Brasil, que vem participando por anos da luta pelo reconhecimento do autor brasileiro na área dos quadrinhos e humor gráfico, não pode deixar de dizer que as informações colocadas, dessa forma na mídia, podem depor contra um trabalho sério nas escolas de utilização de publicações de quadrinhos como ferramenta de incentivo à leitura e cultura nacional.

Fica evidente que houve um descuido de quem escolheu esse título para distribuição para o ensino básico, mas não se pode dizer que os artistas estão deturpando algo como fica a impressão das matérias. Uma criança de 9 anos assiste ao futebol com o pai, que não deve economizar em seu linguajar diante da emoção que o esporte exerce sobre seus torcedores. As transmissões de futebol não conseguem evitar o som dos palavrões cantarolados pelas torcidas. Portanto não é criação dos desenhistas a linguagem chula, mas simplesmente estão colocando o que todos vêem num jogo de futebol pelas transmissões livres de censura.

Ao mesmo tempo, a forma como são colocadas as mulheres no futebol com as “Maria Chuteira” ou “travestis” que se relacionam com jogadores, nas reportagens, que não são também censuradas, só podem ter um reflexo nas histórias dos autores do livro.

O que vemos é uma crucificação de um trabalho sério de artistas e da editora, muito bem conceituados e que podem ser sim distribuídos em universidades para o estudo do mundo do futebol e sua influência na cultura popular.

A utilização dos quadrinhos na sala de aula é confirmada por educadores como fonte importante para agregar valor de conteúdo educacional para o interesse da criança em várias matérias do currículo escolar. Isso foi conquistado depois de muita luta contra o preconceito que antes havia e que caiu por terra ao vermos em cada lar uma criança de cinco anos já se interessar por leitura quando vê revistas infantis na sua frente.

Apenas houve um equívoco na escolha pela faixa etária a que se destinava os livros e não uma publicação censurável como pode ter passado para o grande público.

Pedimos aos meios de comunicação que, sempre que houver algo tão importante como esse tema, também coloquem a opinião de uma pessoa especializada na área, que tenha algum conhecimento da linguagem em discussão.

José Alberto Lovetro (JAL)

Associação dos Cartunistas do Brasil - ACB

2 comentários:

Fabio Santos disse...

Quem vende deveria ter a preocupação de qual será sua finalidade, mas ainda mais quem compra.
Isso está muito obscuro.
Se o governo estadual compra dessa forma, sem saber qual o conteúdo, acredito que tenha um outro motivo muito mais "forte" para se fazer essa compra.
Talvez aproveitem agora para rever aquela compra imora e ilegal da revista Veja para se distribuir nas escolas estaduais.

Alexandre Nagado disse...

Infelizmente, sempre rolam muitos interesses econômicos ou políticos. Na criança é em quem menos se pensa.

E na hora em que a batata fica quente, a culpa é dos autores...

Um deles, o Caco Galhardo, inclusive reclamou por ter que dar entrevista explicando sobre um trabalho para o qual sequer foi pago e que foi comprado para ser dado a crianças, nem de longe o público para o qual ele fez a história.